Esse é meu terceiro artigo, então desde já quero agradecer o retorno positivo dos outros dois que começaram sem qualquer intenção de fato. Nesse aqui eu quero abordar um pouco sobre nossa protagonista da sequel (Rey).

Antes de escrever tive que dedicar um tempo para ler outras fontes, fazer um comparativo daquilo que já tinha na minha pré-análise para saber se estava pecando em algum ponto antes de escrever sobre ela.

Bom, o resultado foi até um pouco surpreendente para mim, porque meu envolvimento com a Rey em sua leitura foi baseado em algumas partes na forma como li o Kylo Ren (então se você não leu sobre antagonista, eu vou pedir que dê uma paradinha para conferir o primeiro artigo clicando aqui).

Para começar, uma coisa que não havia reparado logo de inicio foi que o desenvolvimento da narrativa da saga sequel teve como o primeiro personagem a ser desenvolvido pela Lucasfilm o Kylo Ren. Foi só depois do fechamento dele que pensaram como funcionaria a protagonista. (Louco, não é mesmo?).

Primeiramente, não vou culpar a Rey por sua narrativa muitas vezes “aparentemente” mostra-se superficial para alguns fãs da saga (porque na verdade essa personagem é tão repleta de camadas quanto o antagonista). E uma coisa se entrelaça a outra devagar (um dia vou escrever sobre isso melhor eu acho. Risos).

Para começar quem é a Rey afinal de contas?

Nós conhecemos Rey em O Despertar da Força como sendo uma garota que foi abandonada por sua família por um motivo desconhecido. Alguns teorizaram que ela poderia ter uma forte ligação com alguma geração de Jedi antigos, mas tudo que nos foi revelado até o Episódio VIII – Os Últimos Jedi é que sua origem não era algo tão importante afinal.

Um dos fatores interessantes sobre a Rey é que desde que foi abandona ela ficou a espera de sua família como se isso fosse tudo que a vida lhe reservava. É legal a gente também perceber que ela se tornou uma “scavenger”, ou seja, “sucateira” como uma metáfora proposital.

Rey acredita ser uma coisa descartada como se ela fosse algo de pouco valor (lixo), e ela procura entre os destroços algo valioso… Outra metáfora, porque Rey é alguém valiosa perdida em um planeta completamente ruído. Isso faz parte da caracterização de Rey como a conhecemos, assim como uma das razões pelas quais faz sentido também que seus pais não tenham importância no sentido de definir de fato o que ela é, já que ela se caracteriza muito melhor pelo seu abandono e o completo desconhecimento de sua origem.

Se Rey foi abandonada em Jakku, então logicamente isso trás a ela reflexões sobre sua personalidade. Vamos colocar alguns aqui…

A descrição:

– Rey não é alguém disposta a confiar nas pessoas porque ela viveu mais da metade de sua vida lutando em disputa com outros seres para sobreviver. Ela aprendeu que não podia confiar, não apenas porque vivia sendo ameaçada em termos de sobrevivência, mas porque também teve a experiência de se iludir antes de TFA.

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Segundo a informação do livro Antes do Despertar, Rey encontrou Devi e Strunk com quem acabou formando uma espécie de aliança. Os três concertam uma nave perdida localizada depois de uma tempestade de areia e voam com ela até o Entreposto Niima (algo que Rey chega a citar a Finn em o Despertar da Força. E é essa a primeira vez que a personagem voa em uma nave, pois antes disso somente havia tido experiências nos simuladores.

O plano de Rey para com seu achado era o vende-lo para Plutt, mas Devi e Strunk (seus aliados) queriam mesmo usar o transporte para sair de Jakku, a dupla chegou a convidar a moça para ir junto na jornada, porém Rey teima em continuar esperando seus pais.

Na conclusão, Rey foi até o comerciante para fazer a negociação sobre a nave, porém ficou frustrada ao saber que a dupla foi embora no transporte quando se direcionou ao comerciante… Uma experiência que mostra que Rey pode ser alguém um tanto ambiciosa, e também egoísta por somente pensar em si em primeiro plano (não que isso seja algo anormal de qualquer ser humano, porém acho que a maioria sempre a vê como alguém pura e boa demais… Sem defeitos).

– Também temos aqui agressividade.

Ela precisa ser alguém intimidadora, e Rey consegue. Isso se faz muito bem quando salva BB8 de Teedo, que queria roubar as suas peças. Faz-se presente também quando luta contra os mercenários de Plutt sozinha, ou mesmo, quando corre atrás de Finn por estar usando a jaqueta de Poe (algo que Finn menciona a Poe durante o HQ do piloto ao dizer que Rey “quase arrancou sua cabeça”).

Intimidadora, feroz, assustadora (Eu diria, sim!).

– Outro ponto, negação…

Rey sente-se com um complexo de inferioridade que nunca demonstra às pessoas, tanto que nunca quis assumir a frente da rebelião, somente se propôs a achar alguém que pudesse suprir este papel. Primeiro Luke, depois Kylo… Ela nunca encarou como se pudesse fazer algo quando ela mesma precisava resolver o que mais a angustiava, que era a sua questão familiar.

– Ausência de sentir?

Rey não se permitir sentir qualquer emoção pelas pessoas ou criar vínculos afetivos, já que não consegue confiar em ninguém.

Aqui claramente você percebe que ela não vai simplesmente se abrir com alguém, mesmo que este engraçadinho seja da Resistência.

– Ela tem senso de responsabilidade.

Ela sabe o que é senso de responsabilidade porque precisou amadurecer mais cedo que as outras pessoas, então ela entende, de certa forma melhor, a necessidade de determinadas coisas, como no caso de ajudar BB8. Rey se compadece de BB8 porque ela se viu nele: ele estava sozinho, esperando por alguém e podia viver coisas que ela viveu ou simplesmente ter um final trágico diferente do dela… Eu poderia dizer que essa empatia pelo droide foi o que a arrastou para a Resistência.

– Seu ponto negativo é que Rey mente para si mesma.

É muito claro que alguém com um trauma tão profundo precisa se agarrar a uma esperança, uma chama que seja de algo para se confortar, e neste caso é o retorno daqueles que a abandonaram… Ela não quer admitir que foi deixada para trás ou descartada, ela nega isso com força, porque teme se sentir pior do que se sentiu, ou mesmo teme nutrir sentimentos ruins sobre as pessoas que a deixaram. Ela quer negar que possa sentir emoções negativas para ter esperança, e enquanto faz isso, ela ao mesmo tempo mergulha em uma rede de proteção.

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Rey sempre soube que sua origem jamais iria interferir no que era, ou mesmo, que ela não tinha um legado importante para justificar a manifestação na “FORÇA”. Ela está assustada… E puxa, ela só tem a sua necessidade de achar sua origem, porém isso lhe da uma esperança: “Mas por que eu sou isso?”, “A Força pode explicar de onde eu vim?”. É outra pergunta que começa a atormentá-la.

Mas a verdade é que a Força, como explicada por Luke durante o Episódio VIII, não é uma coisa que te torna melhor do que ninguém, ela é uma coisa que te escolhe e que faz o que acha que deve com você. Ela não precisa de uma explicação, e Rey não precisa de uma origem, mesmo porque os Jedi não se relacionavam amorosamente devido ao seu código. Então, isso é indiferente tendo em vista que um Jedi pode estar em qualquer lugar. Particularmente acho isso bastante conceitual e bonito, eu inclusive podia discorrer sobre isso de muitas formas, só que quero voltar ao foco do artigo que é a Rey…

Bom, entendemos estes pontos que constituem a personagem como ela é. Então, aqui vamos começar outra parte, uma parte pouco mais difícil…

Que raios isso tem a ver com o que eu disse lá no começo do texto?

Simples… Tem pontos da Rey que não se consegue ler sem o Kylo, e isso se justifica porque tudo aquilo que o Kylo Ren é ou representa, também se relaciona com a Rey.

Veja bem, ambos são traumatizados pelo passado, porém a Rey escolheu reprimir sua raiva sobre a figura das pessoas que a deixaram, enquanto o Kylo resolve que não queria viver relembrando isso e se tornar alguém forte, porém a única forma de se livrar disso é “matando seu passado”. Isso não quer dizer “eu odeio Han Solo”, isso quer dizer “eu acho necessário fazer isso” [matar Han]. Tal qual, Rey acha necessário mentir para si mesma para não se entregar ao que acha que é difícil aceitar (“Fui rejeitada e abandonada”).

É exatamente toda essa ferramenta que foi criada por Rian Johnson no episodio VIII e que reforçou o que Maz Kanata disse a Rey em O Despertar da Força:

Comparando agora com a cena de Kylo e Rey.

Este é o primeiro ponto que consigo destacar como fundamental também para que eles se entendam, para que eles tenham um vinculo forte independente se isso é de sangue ou não.

Kylo e Rey se sentem traídos pelas pessoas, eles sabem tudo que os atormentam e somente trabalham seus complexos de abandono de forma diferentes, mas eles sabem o quanto isso dói. Eles entendem o que significa sentir medo de algo.

“Não tenha medo. Eu também sinto”. – Kylo Ren (O Despertar da Força).

Eles sabem o que é a solidão porque eles cresceram se vendo sozinhos, viveram sem amigos em um lugar onde precisavam sobreviver (não vão achando que a vida do Kylo com o Snoke deveria ser fácil, ou que o treino no templo com Luke era um mar de rosas).

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O que eu quero destacar é que justamente esse fato de ambos terem vivenciado coisas tão “parecidas” é o que faz tanta diferença para eles… Que faz com que seja muito mais fácil você mergulhar na Rey se entender o Kylo Ren. Infelizmente se você apenas avaliar Rey, você não consegue enxergar essas camadas dela com tanta profundidade… Não consegue ver como a personagem foi pensada para ser um contraponto e ao mesmo tempo um complemento do Kylo Ren na trilogia.

Outros pontos que acho muito bons de serem avaliados…

Algumas pessoas normalmente dizem que a Rey é uma personagem que não parece “sentir afeto”, eu digo isso sobre uma perspectiva diferente de família. Reforço isso porque é muito claro o quanto assunto da família [para Rey] acaba abalando as estruturas da personagem. Só que a forma como ela se relaciona afetivamente com outras pessoas não é algo que você olha e diz “UAU, Rey se importa mesmo com Finn ou com Poe”, algo que ficava muito claro com Luke Skywalker (Quando você olha sua relação com Leia e Han Solo). E por que isso acontece? Porque a personalidade da Rey é tão individualista quanto a do Kylo Ren, até o momento que ocorre aquele duelo na sala do trono.

Outra coisa que acho importante notar é que a ligação da Rey com o Kylo é muito mais profunda do que com qualquer outro personagem. Se nós compararmos, por exemplo, a relação do Finn com a Rey, e a relação da Rey com o Kylo, podemos entender não apenas isso, mas que Rey guarda muitas coisas dentro de si… Isso não quer dizer que Rey se afeta pelas pessoas, ela apenas não sabe expor-se.

Exemplificando com duas cenas:

A primeira retornando ao que aconteceu entre o Finn e Rey: eles são amigos certo? Mas o que Finn sabe sobre a Rey? Ela nunca lhe falou quem são seus pais, quais são seus medos, o que ela sente de verdade. Por que Jason Fry descreve então na Novel que a única pessoa que Rey consegue pensar para desabafar após não achar as repostas que buscava era o Kylo Ren? Porque ele a entendia e isso é bastante claro por diversos motivos… E mais claro se torna ainda quando percebemos que ele sabia o que Rey estava guardando, o que estava sentido, porque eles são exatamente iguais e ainda possuem o acréscimo da força.

A segunda é aqui:

Vemos a importância para mostrar o lado mais emocional da Rey através do Kylo, porque nessa cena temos a Rey falando “Não vá” no imperativo para seu amigo Finn. Veja ela deu uma espécie de ordem como costuma se utilizar, ainda que mais brando.

Mas neste outro ponto aqui com Kylo Ren, ela fez um pedido, ou seja, isso mostra sua parte mais emocional e frágil (vulnerável).

É por isso que na minha compreensão, quando você analisa as atitudes de Rey em vários pontos e compara os comportamentos dela com relação ao Kylo, então você consegue compreender muito melhor o que a Rey sente, como a Rey sente e principalmente porque ela sente.

O que quero dizer é que não é simplesmente olhar para uma personagem feminina e dizer que é incrivelmente forte e independente (“e isso é muito bacana só por isso”). Isso não significa merda nenhuma – com todo o respeito-  porque estão resumindo a personagem e diminuindo completamente sua carga emocional ou ainda pior, olhando para uma personagem e dizendo que não tem fundamento algum para se motivar da forma como se motiva.

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Você está simplesmente rodando um vídeo ou prestando atenção a sequel? Digo isso com todo o respeito, porque alguns, às vezes, parecem agir com embasamentos só do que está na tela superficialmente. Um filme não te conta apenas aquilo que seu olho bateu para ver, ele te diz muito mais que isso. Nada é desenvolvido meramente por ser. Seja um figurino, uma ambientação, uma frase. Quando você está vendo um filme, não se leva em consideração apenas o que está exposto ao olho, mas aquilo principalmente o que não se diz e por esse motivo acho a Rey também uma personagem bem aplicada dentro da saga.

Acho que falta as pessoas (“fãs”) entenderem que isso que é Star Wars atualmente… Interpretação, algo que cabe não apenas uma leitura, mas diversas formas de entender como é feita uma cena, então não consigo compreender, ou melhor, conceber que as pessoas criem tanta raiva em relação aos personagens da saga nova… Para mim esse tipo de avaliação odiosa foi como o Titanic, uma colisão com o que não viu…

Se você tem um ótimo bom senso para escrever sua própria critica, então nos deixe saber o que você pensa a respeito dessa personagem também! Até a próxima!

Autoria: Annie Walflarck

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Davi Simon

Pai do Lucas, modelo e atriz.